terça-feira, 21 de julho de 2015

Carta a um velho cientista

Depois de alguns meses de estiagem, eu volto a desembocar os posts que estavam sendo amadurecidos. Hoje o post é uma carta a um ou alguns velhos (ou não tão velhos assim) cientistas.
Eu nunca fui a Harvard. Diferente do honorável Professor Edward O. Wilson, cujo livro acabo de ler com gosto. Neste livro, Prof. Wilson repete várias vezes o quanto nós, jovens cientistas, somos necessários. Venho por meio desta carta lembrar do quanto você, velho cientista, também é necessário! E urgentemente imprescindível, no mínimo para seus alunos.
Escrevo em nome dos pesquisadores-alunos, ics, mestrandos e doutorandos, órfãos, semi-órfãos, filhos de vários pais científicos, ou de um convencional orientador.
Velhos cientistas, vocês são necessários!
Nós, que nunca fomos a Harvard, não somos formados após a formatura. Somos gado novo, sem peso suficiente pra ser mostrados na Exposhow da ciência.. Nossa raça é indefinida, misturada, brasileira. Não somos ensinados na graduação o que é ser profissional, o que é ser Biólogo/Ecólogo em um mundo “mudado” e em um mercado de trabalho que nos é limitado por muitos motivos. Tentamos correr atrás do prejuízo, mas é muito difícil enxergar um problema quando se está dentro dele..
Nós entramos em um mestrado e damos de tudo pela ciência, mas não nascemos prontos. Somos gado novo. Somos formiguinha. Os velhos cientistas são nossos orientadores, mentores, ícones e exemplos. Eles passam pelo departamento muitas vezes silenciosos, outras vezes irônicos, ou ultra-rápidos. Cobram inovação, cobram publicação ao lado do bebedouro. Mas e a formação? Muitos dos que dizem ser esse tipo de observação um mimimi, mas na verdade o que pensam é MIM-MIM-MIM. Orientadores, se coloquem no lugar dos seus alunos. Vocês já devem ter ouvido falar de cherry picking e outras dificuldades na formação e sucesso de um cientista, certo? Já fui a palestras magnas e li textos o suficiente para defender que hoje é mais difícil pra gente em muitos aspectos. Publish or perish, corta de verbas, falta de bolsas (essa eu já estou calejada), falta de espaço, bolsas didáticas-merreca, falta de material, de método.. Será que os velhos cientistas também poderiam se aperfeiçoar em serem orientadores, no ritmo em que seus bons alunos o fazem em ser alunos?
Se eu não fosse bióloga, seria psicóloga. Já ouvi muito de muitos alunos e sim, de alguns professores. Ah se o blog mostrasse tamanha frustração, espera, e o quanto qualquer atitude/não atitude do velho cientista influenciam na formação do jovem.. Mas aí os orientadores costumam a tratar alunos como um coletivo, “alunos”. “Tem aluno que faz isso, tem aluno que faz aquilo, um absurdo”. Alguma vez você se perguntou, ou perguntou a eles, se estava dando atenção suficiente? Ah... nem brinca né! Após essa frase, talvez muitos velhos cientistas abandonem o texto e voltem pra outra aba do Chrome ou Safari.
O que sempre me agradou na ciência é a progressão da interação Mestre-Aprendiz, que leva a maravilhas na vida científica dos dois. E quando se fala em sala de aula, isso é tão especial quanto. Só prestei Biologia porque a Biologia ensinada pelo meu professor era FASCINANTEMENTE ensinada por ele e aprendida por mim! Na minha visão, essa progressão no mundo acadêmico deveria ser sempre única e especial, como sempre foi para mim. Visão romântica demais, talvez. Porém, vejo casos em que essa progressão se tornou número. Número de alunos, número de papers de impacto maior que 2.0. Cadê a calma? Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo – Disse o pensador. Será que os velhos cientistas deveriam refletir sobre seus alunos de forma menos atropelada por prazos?
 Como vamos procurar novos mundos na Terra? Como teremos uma vida na ciência se não tiver vida pulsante, mergulho interativo, sintonia na ciência entre os próprios autores das obras? Temo por uma ciência rasa e asséptica, de linha de mercado.
Que tal uma busca ao pensar juntos sem levar em conta prazos, assinaturas às pressas, mas sim Descobertas e Questionamentos? Vamos a Harvard: - Quando falei a ele sobre equilíbrio, falei das ilhas próximas e distantes como estando “saturadas”. MacArthur disse: “Deixe-me pensar um pouco sobre isso”. Eu confiei que ele iria descobrir algo. Eu já tinha visto indícios da engenhosidade de MacArthur.. - Em diversas discussões esses caras formularam uma Ecologia moderna e fundamental! Trocavam cartas e as liam, diferente dos e-mails que, se hoje tiverem mais do que 4 linhas, não serão lidos pelos orientadores, ou mesmo por co-autores! Eles, os velhões se encontravam, sentavam e pensavam juntos. Não soa nada difícil a iniciativa que foi publicada em 1967 para o mundo.. Que tal desacelerar e ouvir?
E falando em parcerias, disse Wilson: “Minhas dificuldades em Harvard aumentavam (...) Os mais velhos e mais reconhecidos do corpo docente que trabalhavam com as mesmas disciplinas ou estavam completamente absorvidos na tarefa de cuidar dos seus jardins acadêmicos ou estavam em negação”. – Nem Harvard pode ser perfeita, mas de fato se mostra um grande exemplo por meio de Wilson, que nos valoriza, os jovens cientistas, e nos diz que somos necessários! Aliás, também não é nada mal regar seu próprio jardim. Portanto, lembrem-se: velhos cientistas, vocês são necessários, e isso vai muito além da sua assinatura!
Menos mimimi, menos MIM-MIM-MIM!

Leituras:

http://physics.wustl.edu/katz/scientist.html
https://marcoarmello.wordpress.com/2012/03/14/newbies/#more-170
https://en.wikipedia.org/wiki/Cherry_picking_(fallacy)#In_science
https://dynamicecology.wordpress.com/2012/11/27/ecologists-need-to-do-a-better-job-of-prediction-part-i-the-insidious-evils-of-anova/
http://news.sciencemag.org/biology/2014/08/ecology-explaining-less-and-less  








segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Como sobreviver a um mestrado paulera

Oi pessoal! Feliz ano novo! De volta às postagens com fôlego renovado!
Bem, há duas formas de encarar o mestrado: ou você entra na briga ou adquire uma postura de derrotado. As duas posturas estão em um continuum...Nesse contexto, eu evoco novamente o mestre Yoda:

O título do post é “como sobreviver a um mestrado paulera”, pois acredito que deve haver mestrados não pauleiras, eu não duvido, mas a minha experiência foi paulera. Eu sabia que ia ser difícil e assumi o risco, entrei de cabeça, e foi assim que aconteceu.
Antes de entrar nos pormenores, gostaria de dizer novamente que esse post é sobre MINHAS impressões e opiniões.. são dicas que funcionaram bem para mim =D, ou aprendizados após muita tentativa e erro.

Desafios e excessos que eu tive no mestrado

Resumindo bem, a pergunta do meu mestrado foi: “Existe um limiar de fragmentação para morcegos?” Capturei 1500 morcegos em 15 áreas em SP ao longo de um ano. Depois analisei os dados, fui pros EUA fazer um outro trabalho (FAPESP-BEPE) e voltei. Tudo durou 28 meses. Isso incluiu muitos desafios, e aqui comento alguns:
-Sempre curti campo à noite, porém campos a noite podem ser mais cansativos quando se vive em um mundo diurno. Isso porque o mundo é diurno, restaurantes fecham bem antes das 15h em cidadezinhas pacatas, e, geralmente no primeiro dia de campo ficávamos acordados e trabalhando mais de 15 h seguidas. Era muito cansativo.
-Sempre curti morcegos, porém quando caíam mais de 50 em menos de três redes e só eu era capaz de tirá-los, era #tenso!
-Sempre curti ecologia, mas eita ciência complexa hein!
-Sempre curti estudar, mas a literatura vem avançando tão rápido que me sinto permanentemente desatualizada.
-Sempre curti estatística, mas quando os outros explicam ela parece tão mais fácil do que é quando eu tento estudar sozinha!
Aqui cito a amiga Julia Oshima, que em 20 de Janeiro de 2015 publicou um desabafo/texto legal sobre ser ecólogo pesquisador: “Não basta ser ecólogo, tem que ser artista, matemático, domador, piloto, estatístico, filósofo, jornalista, malabarista, programador, humorista, vendedor e ainda saber contar histórias de forma interessante pro revisor gostar de você”. Ou seja, não é fácil não! (Don´t become ascientist
 E foi paulera também porque foi uma transição, foi um crescimento de conhecimento e experiência de magnitude nunca antes sentida por mim. Foi sair da casa dos pais. Foi pagar as próprias contas. Foi muito mais work hard do que play hard.

Como eu sobrevivi?

Inspiração e obstinação

Primeiro, me inspirei em pessoas ao redor que passaram por perrengues bem maiores que o meu. Aqui, perrengue quer dizer uma porrada de campos para fazer, e depois planilhar, analisar e escrever.. e submeter, e tentar viver em meio a tudo isso! Segundo, eu estava obstinada a terminar o projeto, eu me apropriei dele e vivi por ele. Terceiro, mensagens motivacionais de mim para mim foram essenciais! E aí também entram as mensagens motivacionais do meu ex-orientador Marco Mello, que nem imaginava o que eu estava passando, mas sempre emanava mensagens e ensinamentos positivos. Além disso, meus amigos foram essenciais (valeu Julia, Nat, Pavito, Vini!).

Ter um orientador legal

Contar com um orientador top que me deu condições top de me desenvolver e aprender: Miltinho.
A interação com o meu orientador foi essencial, assim que acabaram os campos (antes até) ele repetia que eu tinha que ir pra fora, que eu tinha que pedir bolsa BEPE, nunca me deixando 100% na zona de conforto ahaha.. obrigada, Miltinho. Ao mesmo tempo, algumas vezes ouvi ele dizer: “Rê, vai tomar uma cerveja”, “Rê, vai curtir a mamãe e cachorrinho, vai”. Ainda bem que eu seguia os conselhos dele hahaha...
Aqui vale a pena ler esse post do MM.

A minha dica é: se odeia seu orientador, faça um favor, mude de orientador.

Descanso e ostracismo

Descanso foi essencial.. entrei em uma bolha familiar que me foi plausível, de final de semana eu descansava muito, via filmes,  e lia livros.. e me afastava dos meus amigos (o que foi um ERRO e estou pagando por ele!). Sim, quem está ao seu redor pode ajudar ou atrapalhar em muito sua vida de mestrando: mas o resultado final depende mais de você e da sua interação com seu orientador!

Leia leia leia

Depois que eu fui para o BEPE (ver post aqui), voltei e tinha muitas coisas a terminar ainda. Já que tinha muito a terminar e entender, estudar foi fundamental. E absorver pode levar tempo. Tem coisas que aconteceram em um trabalho de 2013 que eu só entendi outro dia! Isso porque eu li, li, e agora absorvi! Tem conceitos de estatística que conheci em 2012, mas só fui entender em 2014, e explicar para uma terceira pessoa ainda é um desafio.

Seja bom, não seja bobo

Outra coisa que me ajudou muito, mas depois quase atrapalhou foi o envolvimento com várias atividades e demandas do laboratório. Sempre alguém precisa de orientação para usar um programa, revisar um projeto, coletar, analisar, discutir. Sempre há uma aula pra ser dada, um telefonema a ser atendido, um resumo a ser traduzido para algum camarada do lab. Sempre me envolvi muito em atividades paralelas, até que vi que a frase: “me ajuda, é rapidinho” é um mito rsrsrs...mesmo as coisas rapidinhas e não planejadas podem atrapalhar muito quando se tem prazos planejados a cumprir. No ano passado aprendi que um pesquisador não precisa de uma agenda semanal. O planejamento deve ser mensal e anual! Se bobear, bianual.. Os projetos começam a ficar grandes demais, parcerias te prendem em um trabalho que nunca vai ter fim (nunca mesmo!). Ou seja, você quer mesmo ser cientista? Se sim, aprenda que o trabalho nunca tem fim, mas sua vida sim! Então invista muito em organização, pois o que se leva dessa vida é a vida que se leva. Uma estratégia é resolver coisas boa parte somente com momentos marcados/agendados previamente. Isso funciona bem, e ainda deixa sua rotina com momentos flexíveis para se direcionar a coisas não agendadas. Uma coisa que funciona bem pra mim é pedir que nada  de trabalho seja normalmente discutido no facebook, mas sim no email. Bem mais agradável poder abrir seu facebook sem ter que abrir mensagens chatas no final de semana sobre: “Então, você pode me ajudar no meu trabalho, tipo hoje? É pra amanhã”. Ou nada mais brochante que abrir o email domingo à noite contendo um prazo de uma demanda do lab esquecida que vence na segunda, mas só você abriu o email, e muito provavelmente só você estará resolvendo o pepino.
E aí entra outro anti-herói no mestrado paulera, a WIFI no celular.. É quase que irresistível para mim entrar no email de fim-de-semana, mas vim lutando contra isso no último ano, pois isso estava me deixando muito ansiosa e eu estava me sentindo mal e sentindo na pele a parte péssima de ser workaholic (um worklover que fugiu do controle). Então cuidado para não virar um workaholic!!! Se trazer trabalho pra casa ou pros dias de descanso te faz mal, injete uma dose de amor próprio e corte o mal pela raiz! Deixe o trabalho no trabalho. Pós-graduandos também amam, também sofrem, também merecem relaxar =D.

E por fim, aprenda a apanhar!

Um dos grandes lances para seguir feliz na ciência é aprender a ouvir críticas, e chegar a um balanço dinâmico entre humildade e ousadia, que funciona para o seu progresso pessoal e como cientista. Hoje eu sinto um aperto no coração muito menor quando ouço críticas do que quando comecei lá na IC. A gente vai ficando calejado em levar nãos, acredite! O segredo é ir de queda em queda sem perder a motivação e curiosidade de fazer descobertas. Afinal.. o cientista que mais recebe “sims” é muito provavelmente o que mais recebe “nãos”, seja por agências financiadoras, apoios, ou revistas. Então pare de mimimi, e vá a luta!


Eu sobrevivi!

E depois?
Bom, depois de sobreviver ao mestrado, lembre-se que o trabalho não acabou. No mínimo você deveria dar um retorno à sociedade em forma de divulgação científica do seu produto final, e também submeter o seu manuscrito para contribuir de fato com a Ciência, expondo-o ao crivo de seus pares. E depois, vem o doutorado, ou não!
Agora, entre nós, dizem que é fácil entrar no doutorado, o difícil é sair..
Espero ter contribuído para sua sobrevivência, ou pelo menos para seu entendimento ou distração.. Caso queira compartilhar alguma dica de sobrevivência, poste aqui, quem sabe um dia construímos um manual?

Lembrando que todo esse processo teve momentos muito bons e muito dolorosos também, mas foi uma opção minha participar de tudo. E todas as coisas que deixei de fazer no mestrado foram opções minhas, pensadas, dei prioridade máxima ao trabalho. Se me arrependo? Não! Mas hoje ganhei maturidade suficiente para escolher como quero encarar meu doutorado. Não vou levar o doutorado da mesma maneira, pois ganhei eficiência em muitas atividades que antes demorava muito mais, e ganhei tempo também (olha, quatro anos! Ou pura ilusão?).

Esse vídeo a seguir é uma boa analogia para o medo dos prazos ao decorrer do mestrado, uma das cenas que mais me deu medo até hoje! Mas o bom é que:"A vida sempre encontra um meio rs!"