segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Como sobreviver a um mestrado paulera

Oi pessoal! Feliz ano novo! De volta às postagens com fôlego renovado!
Bem, há duas formas de encarar o mestrado: ou você entra na briga ou adquire uma postura de derrotado. As duas posturas estão em um continuum...Nesse contexto, eu evoco novamente o mestre Yoda:

O título do post é “como sobreviver a um mestrado paulera”, pois acredito que deve haver mestrados não pauleiras, eu não duvido, mas a minha experiência foi paulera. Eu sabia que ia ser difícil e assumi o risco, entrei de cabeça, e foi assim que aconteceu.
Antes de entrar nos pormenores, gostaria de dizer novamente que esse post é sobre MINHAS impressões e opiniões.. são dicas que funcionaram bem para mim =D, ou aprendizados após muita tentativa e erro.

Desafios e excessos que eu tive no mestrado

Resumindo bem, a pergunta do meu mestrado foi: “Existe um limiar de fragmentação para morcegos?” Capturei 1500 morcegos em 15 em SP ao longo de um ano. Depois analisei os dados, fui pros EUA fazer um outro trabalho (BEPE) e voltei. Tudo durou 28 meses. Isso incluiu muitos desafios, e aqui comento alguns:
-Sempre curti campo à noite, porém campos a noite podem ser mais cansativos quando se vive em um mundo diurno. Isso porque o mundo é diurno, restaurantes fecham bem antes das 15h em cidadezinhas pacatas, e geralmente no primeiro dia de campo, ficávamos acordados e trabalhando mais de 15 h seguidas. Era muito cansativo.
-Sempre curti morcegos, porém quando caíam mais de 50 em menos de três redes e só eu era capaz de tirá-los, era #tenso!
-Sempre curti ecologia, mas eita ciência complexa hein!
-Sempre curti estudar, mas a literatura vem avançando tão rápido que me sinto permanentemente desatualizada.
-Sempre curti estatística, mas quando os outros explicam ela parece tão mais fácil do que é quando eu tento estudar sozinha!
Aqui cito a amiga Julia Oshima, que em 20 de Janeiro de 2015 publicou um desabafo/texto legal sobre ser ecólogo pesquisador: “Não basta ser ecólogo, tem que ser artista, matemático, domador, piloto, estatístico, filósofo, jornalista, malabarista, programador, humorista, vendedor e ainda saber contar histórias de forma interessante pro revisor gostar de você”. Ou seja, não é fácil não! (Don´t become ascientist
 E foi paulera também porque foi uma transição, foi um crescimento de conhecimento e experiência de magnitude nunca antes sentida por mim. Foi sair da casa dos pais. Foi pagar as próprias contas. Foi muito mais work hard do que play hard.

Como eu sobrevivi?

Inspiração e obstinação

Primeiro, me inspirei em pessoas ao redor que passaram por perrengues bem maiores que o meu. Aqui, perrengue quer dizer uma porrada de campos para fazer, e depois planilhar, analisar e escrever.. e submeter, e tentar viver em meio a tudo isso! Segundo, eu estava obstinada a terminar o projeto, eu me apropriei dele e vivi por ele. Terceiro, mensagens motivacionais de mim para mim foram essenciais! E aí também entram as mensagens motivacionais do meu ex-orientador Marco Mello, que nem imaginava o que eu estava passando, mas sempre emanava mensagens e ensinamentos positivos. Além disso, meus amigos foram essenciais (valeu Julia, Nat, Pavito, Vini!).

Ter um orientador legal

Contar com um orientador top que me deu condições top de me desenvolver e aprender: Miltinho.
A interação com o meu orientador foi essencial, assim que acabaram os campos (antes até) ele repetia que eu tinha que ir pra fora, que eu tinha que pedir bolsa BEPE, nunca me deixando 100% na zona de conforto ahaha.. obrigada, Miltinho. Ao mesmo tempo, algumas vezes ouvi ele dizer: “Rê, vai tomar uma cerveja”, “Rê, vai curtir a mamãe e cachorrinho, vai”. Ainda bem que eu seguia os conselhos dele hahaha...
Aqui vale a pena ler esse post do MM.

A minha dica é: se odeia seu orientador, faça um favor, mude de orientador.

Descanso e ostracismo

Descanso foi essencial.. entrei em uma bolha familiar que me foi plausível, de final de semana eu descansava muito, via filmes,  e lia livros.. e me afastava dos meus amigos (o que foi um ERRO e estou pagando por ele!). Sim, quem está ao seu redor pode ajudar ou atrapalhar em muito sua vida de mestrando: mas o resultado final depende mais de você e da sua interação com seu orientador!

Leia leia leia

Depois que eu fui para o BEPE (ver post aqui), voltei e tinha muitas coisas a terminar ainda. Já que tinha muito a terminar e entender, estudar foi fundamental. E absorver pode levar tempo. Tem coisas que aconteceram em um trabalho de 2013 que eu só entendi outro dia! Isso porque eu li, li, e agora absorvi! Tem conceitos de estatística que conheci em 2012, mas só fui entender em 2014, e explicar para uma terceira pessoa ainda é um desafio.

Seja bom, não seja bobo

Outra coisa que me ajudou muito, mas depois quase atrapalhou foi o envolvimento com várias atividades e demandas do laboratório. Sempre alguém precisa de orientação para usar um programa, revisar um projeto, coletar, analisar, discutir. Sempre há uma aula pra ser dada, um telefonema a ser atendido, um resumo a ser traduzido para algum camarada do lab. Sempre me envolvi muito em atividades paralelas, até que vi que a frase: “me ajuda, é rapidinho” é um mito rsrsrs...mesmo as coisas rapidinhas e não planejadas podem atrapalhar muito quando se tem prazos planejados a cumprir. No ano passado aprendi que um pesquisador não precisa de uma agenda semanal. O planejamento deve ser mensal e anual! Se bobear, bianual.. Os projetos começam a ficar grandes demais, parcerias te prendem em um trabalho que nunca vai ter fim (nunca mesmo!). Ou seja, você quer mesmo ser cientista? Se sim, aprenda que o trabalho nunca tem fim, mas sua vida sim! Então invista muito em organização, pois o que se leva dessa vida é a vida que se leva. Uma estratégia é resolver coisas boa parte somente com momentos marcados/agendados previamente. Isso funciona bem, e ainda deixa sua rotina com momentos flexíveis para se direcionar a coisas não agendadas. Uma coisa que funciona bem pra mim é pedir que nada  de trabalho seja normalmente discutido no facebook, mas sim no email. Bem mais agradável poder abrir seu facebook sem ter que abrir mensagens chatas no final de semana sobre: “Então, você pode me ajudar no meu trabalho tipo hoje? É pra amanhã”. Ou nada mais brochante que abrir o email domingo à noite contendo um prazo de uma demanda do lab esquecida que vence na segunda, mas só você abriu o email, e muito provavelmente só você estará resolvendo o pepino.
E aí entra outro anti-herói no mestrado paulera, a WIFI no celular.. É quase que irresistível para mim entrar no email de fim-de-semana, mas vim lutando contra isso no último ano, pois isso estava me deixando muito ansiosa e eu estava me sentindo mal e sentindo na pele a parte péssima de ser workaholic (um worklover que fugiu do controle). Então cuidado para não virar um workaholic!!! Se trazer trabalho pra casa ou pros dias de descanso te faz mal, injete uma dose de amor próprio e corte o mal pela raiz! Deixe o trabalho no trabalho. Pós-graduandos também amam, também sofrem, também merecem relaxar =D.

E por fim, aprenda a apanhar!

Um dos grandes lances para seguir feliz na ciência é aprender a ouvir críticas, e chegar a um balanço dinâmico entre humildade e ousadia, que funciona para o seu progresso pessoal e como cientista. Hoje eu sinto um aperto no coração muito menor quando ouço críticas do que quando comecei lá na IC. A gente vai ficando calejado em levar nãos, acredite! O segredo é ir de queda em queda sem perder a motivação e curiosidade de fazer descobertas. Afinal.. o cientista que mais recebe “sims” é muito provavelmente o que mais recebe “nãos”, seja por agências financiadoras, apoios, ou revistas. Então pare de mimimi, e vá a luta!


Eu sobrevivi!

E depois?
Bom, depois de sobreviver ao mestrado, lembre-se que o trabalho não acabou. No mínimo você deveria dar um retorno à sociedade em forma de divulgação científica do seu produto final, e também submeter o seu manuscrito para contribuir de fato com a Ciência, expondo-o ao crivo de seus pares. E depois, vem o doutorado, ou não!
Agora, entre nós, dizem que é fácil entrar no doutorado, o difícil é sair..
Espero ter contribuído para sua sobrevivência, ou pelo menos para seu entendimento ou distração.. Caso queira compartilhar alguma dica de sobrevivência, poste aqui, quem sabe um dia construímos um manual?

Lembrando que todo esse processo teve momentos muito bons e muito dolorosos também, mas foi uma opção minha participar de tudo. E todas as coisas que deixei de fazer no mestrado foram opções minhas, pensadas, dei prioridade máxima ao trabalho. Se me arrependo? Não! Mas hoje ganhei maturidade suficiente para escolher como quero encarar meu doutorado. Não vou levar o doutorado da mesma maneira, pois ganhei eficiência em muitas atividades que antes demorava muito mais, e ganhei tempo também (olha, quatro anos! Ou pura ilusão?).

Esse vídeo a seguir é uma boa analogia para o medo dos prazos ao decorrer do mestrado, uma das cenas que mais me deu medo até hoje! Mas o bom é que:"A vida sempre encontra um meio rs!"